Deus & Medo, ou: O falso Reino do Medo

O título desse artigo talvez pareça estranho, mas tem um motivo. Na verdade, o medo não tem nada a ver com Deus. Deus não quer deixar ninguém com medo. Mas, porque nós podemos encontrar o medo em todas as religiões como um dos aspetos essenciais?

 

Quero dizer: as pessoas têm medo que sejam punidas por seus pecados. Eles têm medo que irem para o inferno. Ou eles têm medo do karma. Mas, é muito pior quando pessoas com títulos religiosos (padres, sacerdotes etc.) fazem uso desse medo para controlar os outros. Não somente no passado da humanidade houve muitos exemplos aterrorizantes, que mostraram como o medo foi usado com abuso nas religiões como instrumento de poder – e tudo isso "em nome de Deus". Nessa época, o medo de Deus serviu como um método de fazer as pessoas dependentes da igreja (antigamente, os pecados das pessoas eram absolvidos caso elas dessem dinheiro à igreja; a confissão era também usada com abuso). Mas, infelizmente, você pode encontrar esse esquema nos dias de hoje também. Em muitas igrejas, eles ainda ensinam que os seres humanos são pecadores e ruins, e que eles estão à mercê de Deus. Então, não é de se admirar que muitas pessoas se sintam abusadas, emocionalmente e psiquicamente, e se afastarem da crença em Deus. Porque dessa atitude interior – de que somos infinitamente pecadores e estamos totalmente sujeitos a Deus – nunca pode surgir um amor verdadeiro por Deus. Pelo contrário: cria agressões e rejeições.

 

Eu conheço esse tipo de medo muito bem, e eu sei que esse medo pode causar enorme dano dentro da pessoa. Por isso, eu quero escrever sobre isso nesse artigo. Antigamente, eu mesma tinha muito medo. Tinha medo de que Deus me abandonasse; tinha medo de que eu pudesse ser punida quando eu fizesse ou pensasse alguma coisa ruim. Eu tinha medo das forças do destino e me submeti a elas.

 

Mas eu me tornei mais sábia e sensata. E eu estou convencida de que Deus não quer que nós tenhamos medo dele! Pelo contrário!

Bom, eu não quero dizer que eu sei exatamente o que Deus – ou, talvez, os deuses e as deusas – querem e o que eles pensam. Mas mesmo assim, eu estou certa: ele quer que nós aprendamos a amá-lo e amar todos os seres vivos, e ele quer que nós nos libertemos interiormente. Ou você acha que faz sentido que um pai ou uma mãe exijam que suas crianças tenham medo deles? Não, claro que isso não faz sentido.

 

Um sistema de recompensa e punição, como o conhecemos no plano físico, também é base de muitas concepções do mundo do além. Esse sistema pode ter a sua legitimidade quando se trata de um estabelecimento da ordem e duma certa harmonia entre noções diferentes.

Mas o que é com Deus? Será que ele diferencia entre pessoas "boas" e pessoas "ruins"? Em algumas religiões, como no cristianismo ou no islã, é ensinado que Deus ama todos os seres humanos. Mas, ao mesmo tempo, é ensinado que as "pessoas ruins" vão ser condenados ao inferno para sempre. Isso faz sentido?? Não, não faz. Como é que um tal Deus, cheio de amor e benevolência, poderia rejeitar qualquer dos seus seres, mesmo que seja – em nossa vista! – o ser mais nojento e terrível? É impossível, porque CADA SER é filho ou filha dele.

 

Somos nós, os seres humanos, que desenvolveram esse sistema, e que julgam os outros. Infelizmente, esse sistema está em vigor desde a infância: já as crianças aprendem que elas somente vão ser amadas se eles forem "boas", se elas se comportarem, seguissem um esquema rígido de regras, e se o desempenho delas forem suficiente. Em muitos casos, esse sistema continua na vida adulta. É uma tragédia. Assim, muitas das caraterísticas desconfortáveis ou difíceis das pessoas vão ser reprimidas. Mas todas as partes da psique que são reprimidas e não tratadas sensatamente, vão se acumular dentro da pessoa, se tornando uma carga cada vez mais pesada na alma.

 

Porque estamos seguindo esse sistema? Por um lado, certamente por falta de sensibilidade e empatia, e por falta de conhecimento sobre a psique humana. Talvez também estamos seguindo porque queremos que tudo fosse fácil e simples. "Bom" e "mal" – essas são duas categorias simples para classificar o mundo. Afinal, um ser humano sempre tenta – desde o nascimento – classificar o seu ambiente em categorias. Se ele não fizesse isso, não seria possível de se orientar no mundo. Mas, quanto mais a pessoa cresce, mais ela reconhece que existem muito mais nuances na psique do que simplesmente "bom" e "mal", e que o mundo é tudo mas não é fácil.

 

Talvez o medo de punição pode forçar uma alma, a qual perdeu totalmente o controle, de se afastar do mal. Mas, isso será correto a longo prazo? Será que o medo é a motivação correta para fazer o bem e para se desenvolver interiormente? Certamente não. Especialmente, não será correta quando você percebe que a sua vida e o seu destino estão em suas mãos – talvez não sempre, mas muitas vezes – e que você é capaz de mudar e construir o seu futuro. O mais tardar nesse momento, você deve começar a seguir as suas convicções e se perguntar o que você realmente quer em sua vida.

 

Eu não quero que ninguém tenha medo de Deus. E eu me atrevo a dizer que Deus também não quer que ninguém tenham receio dele. Ninguém deve fazer o bem apenas por medo de punição. Ninguém deve ir à igreja apenas por medo de não ser salvo. Tais noções e atitudes levam a ações exageradas e contrárias à vida. A pessoa se arrisca a negar e ignorar a própria psique e o próprio caráter – dessa maneira, você pode se tornar o inimigo de você mesmo. As coisas, as quais você reprime em sua psique, vão se lançar em cima de você um dia. Mas repressão não é o caminho o qual a humanidade deve escolher – não é o caminho que Deus quer para nós. Um Deus bondoso, que ama todos os seres, quer que os seres humanos sejam livres, que eles reconheçam si mesmo e também aprendem a amar si mesmo – em vez de seguir dogmas rígidos, e em vez de se acorrentar.

 

Quem quer se dedicar a Deus, deve tentar andar o próprio caminho e não seguir pressões e expectativas exteriores. A curto prazo, isso parece mais difícil do que seguir um códice de regras fixas. Mas quem sempre obedece dogmas rígidos, vai logo constatar que a sua natureza humana não pode suportar isso por muito tempo, e que não haverá muito progresso.

Além disso, eu aconselho a todos que eles não desenvolvam atitudes as quais sempre tematizam o medo e a culpa. É claro que o ser humano deve reconhecer os seus erros e tentar fazer melhor. Mas quem realmente quer se dedicar a Deus, nunca deve pensar que ele, um ser humano, seria uma sujeira na terra, porque isso simplesmente não é verdade. O medo e a culpa não podem ajudar você a se aproximar de Deus – então, não se deixe ser guiado por eles. O amor, a confiança e a fé são guias muito mais aconselháveis.

 

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